segunda-feira, dezembro 28

Miguel Sousa Tavares in "Expresso"

Segunda-feira passada, a meio da tarde, faço a A-6, em direcção a Espanha e na companhia de uma amiga estrangeira; quarta-feira de manhã, refaço o mesmo percurso, em sentido inverso, rumo a Lisboa. Tanto para lá como para cá, é uma auto-estrada luxuosa e fantasma. Em contrapartida, numa breve incursão pela estrada nacional, entre Arraiolos e Borba, vamos encontrar um trânsito cerrado, composto esmagadoramente por camiões de mercadorias espanhóis. Vinda de um país onde as auto-estradas estão sempre cheias, ela está espantada com o que vê:
- É sempre assim, esta auto-estrada?
- Assim, como?
- Deserta, magnífica, sem trânsito?
- É, é sempre assim.
- Todos os dias?
- Todos, menos ao domingo, que sempre tem mais gente.
- Mas, se não há trânsito, porque a fizeram?
- Porque havia dinheiro para gastar dos Fundos Europeus, e porque diziam que o desenvolvimento era isto.
- E têm mais auto-estradas destas?
- Várias e ainda temos outras em construção: só de Lisboa para o Porto, vamos ficar com três. Entre S. Paulo e o Rio de Janeiro, por exemplo, não há nenhuma: só uns quilómetros à saída de S. Paulo e outros à chegada ao Rio. Nós vamos ter três entre o Porto e Lisboa: é a aposta no automóvel, na poupança de energia, nos acordos de Quioto, etc. - respondi, rindo-me.
- E, já agora, porque é que a auto-estrada está deserta e a estrada nacional está cheia de camiões?
- Porque assim não pagam portagem.
- E porque são quase todos espanhóis?
- Vêm trazer-nos comida.
- Mas vocês não têm agricultura?
- Não: a Europa paga-nos para não ter. E os nossos agricultores dizem que produzir não é rentável.
- Mas para os espanhóis é?
- Pelos vistos...
Ela ficou a pensar um pouco e voltou à carga:
- Mas porque não investem antes no comboio?
- Investimos, mas não resultou.
- Não resultou, como?
- Houve aí uns experts que gastaram uma fortuna a modernizar a linha Lisboa-Porto, com comboios pendulares e tudo, mas não resultou.
- Mas porquê?
- Olha, é assim: a maior parte do tempo, o comboio não 'pendula'; e, quando 'pendula', enjoa de morte. Não há sinal de telemóvel nem Internet, não há restaurante, há apenas um bar infecto e, de facto, o único sinal de 'modernidade' foi proibirem de fumar em qualquer espaço do comboio. Por isso, as pessoas preferem ir de carro e a companhia ferroviária do Estado perde centenas de milhões todos os anos.
- E gastaram nisso uma fortuna?
- Gastámos. E a única coisa que se conseguiu foi tirar 25 minutos às três horas e meia que demorava a viagem há cinquenta anos...
- Estás a brincar comigo!
- Não, estou a falar a sério!
- E o que fizeram a esses incompetentes?
- Nada. Ou melhor, agora vão dar-lhes uma nova oportunidade, que é encherem o país de TGV: Porto-Lisboa, Porto-Vigo, Madrid-Lisboa... e ainda há umas ameaças de fazerem outro no Algarve e outro no Centro.
- Mas que tamanho tem Portugal, de cima a baixo?
- Do ponto mais a norte ao ponto mais a sul, 561 km.
Ela ficou a olhar para mim, sem saber se era para acreditar ou não.
- Mas, ao menos, o TGV vai directo de Lisboa ao Porto?
- Não, pára em várias estações: de cima para baixo e se a memória não me falha, pára em Aveiro, para os compensar por não arrancarmos já com o TGV deles para Salamanca; depois, pára em Coimbra para não ofender o prof. Vital Moreira, que é muito importante lá; a seguir, pára numa aldeia chamada Ota, para os compensar por não terem feito lá o novo aeroporto de Lisboa; depois, pára em Alcochete, a sul de Lisboa, onde ficará o futuro aeroporto; e, finalmente, pára em Lisboa, em duas estações.
- Como: então o TGV vem do Norte, ultrapassa Lisboa pelo sul, e depois volta para trás e entra em Lisboa?
- Isso mesmo.
- E como entra em Lisboa?
- Por uma nova ponte que vão fazer.
- Uma ponte ferroviária?
- E rodoviária também: vai trazer mais uns vinte ou trinta mil carros todos os dias para Lisboa.- Mas isso é o caos, Lisboa já está congestionada de carros!
- Pois é.
- E, então?
- Então, nada. São os especialistas que decidiram assim.
Ela ficou pensativa outra vez. Manifestamente, o assunto estava a fasciná-la.
- E, desculpa lá, esse TGV para Madrid vai ter passageiros? Se a auto-estrada está deserta...- Não, não vai ter.
- Não vai? Então, vai ser uma ruína!
- Não, é preciso distinguir: para as empresas que o vão construir e para os bancos que o vão capitalizar, vai ser um negócio fantástico! A exploração é que vai ser uma ruína - aliás, já admitida pelo Governo - porque, de facto, nem os especialistas conseguem encontrar passageiros que cheguem para o justificar.
- E quem paga os prejuízos da exploração: as empresas construtoras?
- Naaaão! Quem paga são os contribuintes! Aqui a regra é essa!
- E vocês não despedem o Governo?
- Talvez, mas não serve de muito: quem assinou os acordos para o TGV com Espanha foi a oposição, quando era governo...
- Que país o vosso! Mas qual é o argumento dos governos para fazerem um TGV que já sabem que vai perder dinheiro?
- Dizem que não podemos ficar fora da Rede Europeia de Alta Velocidade.
- O que é isso? Ir em TGV de Lisboa a Helsínquia?
- A Helsínquia, não, porque os países escandinavos não têm TGV.
- Como? Então, os países mais evoluídos da Europa não têm TGV e vocês têm de ter?
- É, dizem que assim entramos mais depressa na modernidade.
Fizemos mais uns quilómetros de deserto rodoviário de luxo, até que ela pareceu lembrar-se de qualquer coisa que tinha ficado para trás:
- E esse novo aeroporto de que falaste, é o quê?
- O novo aeroporto internacional de Lisboa, do lado de lá do rio e a uns 50 quilómetros de Lisboa.
- Mas vocês vão fechar este aeroporto que é um luxo, quase no centro da cidade, e fazer um novo?
- É isso mesmo. Dizem que este está saturado.
- Não me pareceu nada...
- Porque não está: cada vez tem menos voos e só este ano a TAP vai cancelar cerca de 20.000. O que está a crescer são os voos das low-cost, que, aliás, estão a liquidar a TAP.
- Mas, então, porque não fazem como se faz em todo o lado, que é deixar as companhias de linha no aeroporto principal e chutar as low-cost para um pequeno aeroporto de periferia? Não têm nenhum disponível?
- Temos vários. Mas os especialistas dizem que o novo aeroporto vai ser um hub ibérico, fazendo a trasfega de todos os voos da América do Sul para a Europa: um sucesso garantido.
- E tu acreditas nisso?
- Eu acredito em tudo e não acredito em nada. Olha ali ao fundo: sabes o que é aquilo?
- Um lago enorme! Extraordinário!
- Não: é a barragem de Alqueva, a maior da Europa.
- Ena! Deve produzir energia para meio país!
- Praticamente zero.
- A sério? Mas, ao menos, não vos faltará água para beber!
- A água não é potável: já vem contaminada de Espanha.
- Já não sei se estás a gozar comigo ou não, mas, se não serve para beber, serve para regar - ou nem isso?
- Servir, serve, mas vai demorar vinte ou mais anos até instalarem o perímetro de rega, porque, como te disse, aqui acredita-se que a agricultura não tem futuro: antes, porque não havia água; agora, porque há água a mais.
- Estás a dizer-me que fizeram a maior barragem da Europa e não serve para nada?
- Vai servir para regar campos de golfe e urbanizações turísticas, que é o que nós fazemos mais e melhor.
Apesar do sol de frente, impiedoso, ela tirou os óculos escuros e virou-se para me olhar bem de frente:
- Desculpa lá a última pergunta: vocês são doidos ou são ricos?
- Antes, éramos só doidos e fizemos algumas coisas notáveis por esse mundo fora; depois, disseram-nos que afinal éramos ricos e desatámos a fazer todas as asneiras possíveis cá dentro; em breve, voltaremos a ser pobres e enlouqueceremos de vez.
Ela voltou a colocar os óculos de sol e a recostar-se para trás no assento. E suspirou:
- Bem, uma coisa posso dizer: há poucos países tão agradáveis para viajar como Portugal! Olha-me só para esta auto-estrada sem ninguém!

Reflexões

"Existem dois modos de conceber as relações humanas. Um, como se fosse uma transacção económica regulada pelo direito. O outro, como o encontro de duas pessoas cheias de egoísmo e de generosidade, de avidez e de ímpeto, de cólera e de ternura. Por isso a quem nos ajudou a viver, devemos sempre alguma coisa e a relação nunca poderá terminar.

Apercebemo-nos desta verdade com as pessoas que amamos, que temos amado. Mesmo quando não estamos de acordo com elas, mesmo quando a relação nos pesa, mesmo quando estamos separados, sentimos que permanecem sempre como parte do nosso ser e não podemos deixar de pensar e de nos preocupar com elas. Talvez seja por isso que, para romper um relacionamento tão firme, nos tornamos violentos, furiosos. Isso só acontece quando existe o amor ...

Quando duas pessoas que estiveram profundamente apaixonadas se deixam, para fazê-lo, devem censurar-se, odiar-se, para quebrar um laço que apesar da sua vontade continua a resistir subterraneamente. Mas que, em caso de necessidade, cada um sentirá sempre o misterioso direito de pedir ajuda ou de socorrer o outro."

Francesco Alberoni

sexta-feira, dezembro 25

Portugueses levantaram mais de 1.700 M€ de 1 a 21 Dezembro

"Os portugueses levantaram entre os dias 1 e 21 de Dezembro mais de 1.700 milhões de euros, num total de 26 milhões de operações na rede Multibanco, segundo a SIBS.
Além dos 1.729 milhões de euros de levantamentos foram efectuados nos terminais de pagamento automático da rede Multibanco 47 milhões de compras no valor de 2.070 milhões de euros.
A SIBS afirma que o valor médio levantado por dia foi de 67 euros e o valor médio dos pagamentos de compras em lojas foi de 44 euros.
Face a igual período de 2008 o montante levantado pelos portugueses aumentou 3,66%, apesar do valor médio ter caído ligeiramente, em 0,26%.
Já as compras pagas na rede Multibanco aumentaram 11% em valor face ao ano passado, apesar de o valor médio ter caído 2,10%."
Quem diria que estamos em crise...
Rute

Acender a chama

“Viver a plenitude do amor, significa acender a chama do amor que todos os seres humanos possuem. É sentir amor sem ter que rotular, sem dar nomes ou ter que direcionar para outro ser, seja ele outro ser vivo externo a nós ou a Deus, a deuses, a santos, aos amigos, etc…

A plenitude do amor é simplesmente sentir amor e manter esse sentimento dentro de si mesmo até que ele extravase e ilumine todo o ambiente. Não importa se estás num dia mau ou num dia bom. Não importa onde moras, qual o teu sexo, se és rico ou se és pobre, .....A plenitude do amor é mais do que tudo isso. É uma força primordial que impulsionará os seres humanos para a evolução da espécie.....

Essa força foi-nos dada mesmo antes de nascermos. É uma lei universal. E cabe a cada um de nós acender a nossa própria chama. Nada nem ninguém pode fazer isso por nós. A evolução de toda a vida humana depende de cada um fazer a sua parte.”

(Texto adaptado)

Encontrei este pequeno texto com o qual me identifico muito, e não resisti a comentá-lo.

O amor, entendido desta forma, é uma atitude de vida, de estar na vida, é quase uma filosofia de vida, ........e é muito difícil de atingir.
E será que esta sociedade onde nos inserimos e onde somos “obrigados” a conviver nos permitirá alguma vez assumir esta atitude de vida? Duvido. Mesmo com muita fé e muita força interior, as solicitações e as agressões á nossa volta são demais, e não nos permitem paz de espírito suficiente para nos elevarmos a este nível.

Sim, talvez com o isolamento total. Mas ai existe um outro paradoxo. O ser humano é por definição um ser social. Salvo raras excepções, que confirmam a regra, o ser humano raramente subsiste ao isolamento. Portanto, isolamento, meditação, reflexão, atitude...não sei, não sei mesmo. Na verdade, o caminho que as sociedades ditas modernas estão a percorrer, é exactamente o contrário de tudo isso.

Não quero eliminar a palavra esperança do meu vocabulário, até porque acredito na força do meu amor, mas ainda estou muito longe de acreditar na força do amor do ser humano. Infelizmente, é a minha experiência de vida que mo sussurra ao ouvido.

De qualquer modo, nesta quadra festiva há que manter acesa essa luz de esperança, de preferência fazendo alguma coisa por isso.

A todos, desejo que consigamos acender e manter acesa, a chama do nosso amor.



quarta-feira, dezembro 23

Feliz Natal

Desejo a todos os participantes e leitores deste blog um Feliz Natal, recheado de coisas boas.


terça-feira, dezembro 22

Como a porca política suja um ministro limpo!

Começo por dizer que considero o ministro Teixeira dos Santos, o elemento mais credível e valioso dos dois últimos Governos. Mais, num período de crise como a que resistámos e resistamos, foi e está a ser, de uma enorme mais-valia contar com um homem da sua serenidade e credibilidade à frente, essencialmente, da pasta das Finanças.
Por isso mesmo, não merecia ter sido sujeito à "traição" de que foi alvo durante a passada semana. Enquanto assinalava e protestava, e muito bem, contra o "regabofe" e os "devaneios financeiros" do Governo Regional da Madeira e do palhaço-sem-maneiras que o governa, os seus parceiros deputados socialistas viabilizavam um empréstimo extraordinário de 79 milhões de euros, a contrair por esse mesmo Governo!
Porque será que me cheira a queijo limiano?! Desta vez com paladar madeirense, o que dará à aprovação do Orçamento de Estado - OE - 2010 um toque mais exótico!
Mais, será que ninguém avisou o senhor ministro das Finanças, que estavam a cozinhar mais uma negociata porca? Onde, no vale-tudo da política portuguesa, mais 79 milhões de endividamento do País (só 8€ por português) para aprovar um OE, até que foi uma pechincha!
Mas sendo ele o responsável pelo o OE, não seria justo ser ele a decidir qual a estratégia para o aprovar?! Parece que ele não gosta de negociatas, é esse o problema!
O problema do País é que a maioria gosta!

De camelos a passarinhos...

Já vão uns tempos desde que um ministro, que já nem o é, disse a propósito da localização do aeroporto a sul do Tejo, que "jamais", nem pensar já que essas bandas eram um autêntico deserto!

Pois na passada quarta-feira, o PS realizou em Beja as suas jornadas parlamentares, como já tem feito (e restantes partidos também) noutros locais do País. O primeiro-ministro - PM -começou o dia por Portalegre, onde já chegou atrasado, e de onde saiu às 14h30m. Mais atrasado ainda do que já tinha chegado. E com uma previsão de fazer Portalegre - Beja numa hora! Chegou claro às 16h00m a Beja. Atrasadissimo, já que era para estar em Lisboa, par assistir à posse dos novos conselheiros de Estado às 17h!
(Só um aparte nesta novela: Quando o PM saiu de Portalegre às 14h30, sabendo que deveria estar em Lisboa às 17h, não teria sido mais lógico ter rumado directo a Lisboa? Ou será que a questão partidária está acima do Conselho de Estado?)

Mas o que motiva a minha escrita indignada, foi o comentário dirigido por este ao lider parlamentar, Francisco Assis, à chegada, alto e bom som, conforme noticia de vários jornais, e ainda não desmentida:
"O que é que vocês vieram fazer para tão longe, ver passarinhos?!"
Para este senhor o Alentejo, Beja em concreto, é terra onde se vai apenas para ver passarinhos, tudo o resto é verbo de encher.
Por aqui não há indústria, comércio, um aeroporto para o qual não arranjam solução, uma EDIA que gerem como entendem, um sem número de problemas sociais, uma agricultura devastada, um dos rendimentos per capita mais baixos da Europa devido a incompetentes politicos...enfim pessoas, que não existem apenas quando é tempo de votar e nos restantes meses se transformam em passarinhos!

Como alentejano, filho de alentejano, e neto e bisneto de alentejanos, políticos deste calibre, com atitudes destas, são excelentes...no desemprego (onde nunca ficam!).

Tenha vergonha, peça desculpa, no minímo.

segunda-feira, dezembro 21

Governo destaca "qualidade e capacidade para criar riqueza e emprego" do Parque Alqueva

Reguengos de Monsaraz, Évora, 21 Dez (Lusa) - O ministro da Economia, Vieira da Silva, destacou hoje o facto de o projecto turístico Parque Alqueva, nas margens da albufeira alentejana, constituir um "investimento de grande qualidade", possuindo "capacidade para criar riqueza e emprego" na região e no país.
O projecto "vai permitir que se instalem neste novo pólo turístico, que esperamos que venha a desenvolver-se, uma capacidade de criar riqueza e criar emprego de que tem valor inestimável no país e nesta região", disse Vieira da Silva.
O governante falava à agência Lusa durante uma visita à Herdade do Roncão d'El Rei, onde está em construção um hotel, com 250 camas, um Wine Club e um campo de golfe, constituindo-se como a primeira fase do projecto turístico.


Boas notícias, mas para quando??


Rute
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